
Procurando meu carrinho de vacas.
Voltando à minha infância, procuro aqueles carros de bois que passavam pelas corredoiras, aquela doce música. Escrevendo sobre a terra, a língua espanhola não me sai, não me sinto à vontade, há sentimentos que exigem uma língua própria, por isso estas saudades de infância vão ser escritas em galego, mas não no galego de hoje, mas em o galego que sinto, no galego ancestral, no galego de uma terra que nessa época ia de Ferrol a Coimbra e além do rio Mondego.
Talvez eu não entenda que quando a terra era alimentada com esterco, posso dizer que não desgosto desse aroma.
Ando pelas corredoiras perto de casa e não vejo aqueles carros de bois, sinto como se me tivessem roubado a infância.
Volto-me para Manuel María, e parece que a fonte dos meus olhos está secando.
E pensei que se o instrumento não existe, a palavra logo desaparecerá.
E aquela musiquinha que abria o dia, me dói, me dói até hoje, as vacas sem cornos, meu deus onde tanto se veu.
O canto do carrinho dizia se o senhor Xose ou o tio Xan se aproximava, o canto do carro era como a identificação das pessoas.
Não sei porque hoje abri a veia sentimental, fico só, em silêncio, comendo minhas mágoas bebendo minhas baguas.




